Com o passar dos anos, os tentáculos
desse polvo eletrônico me enlaçaram até a asfixia
DESCONFIO QUE
Satanás inventou o e-mail só para me infernizar.
Desde que caí nessa
armadilha criada pelo Maligno com o objetivo precípuo de transformar minha
existência num vale de dívidas eternas, vivo sufocado pelas mensagens que
chegam feito nuvens de gafanhotos.
Anos atrás, embasbacado com essa
ousadia da informática que jurava simplificar a rotina, acabar com cartas,
selos, rolos de fax e com o tempo desperdiçado ao telefone, além de
colocar em rede a humanidade inteira, atirei-me em seus braços com
determinação.
Suportei com galhardia os dissabores das horas noturnas
de trabalho extra anteriormente destinadas ao lazer e ao convívio
familiar. O ganho de rendimento e a sensação de viver "online" com o mundo
valiam o sacrifício.
Por meio do e-mail podia discutir os casos de meus
pacientes, conversar com escritores, ter acesso a pessoas que jamais teria
conhecido em outras circunstâncias e manter contato com amigos que não
tenho tempo de ver.
Com o passar dos anos, o correio eletrônico
melhorou a performance e acelerou meu ritmo de trabalho com tanta fúria
que se tornou imprescindível. Com o celular no bolso e a tela do
computador à frente eu me sentia Clark Kent pronto para virar Super-Homem,
assim que a ocasião se apresentasse.
Como eu, milhões de incautos
embarcaram de corpo e alma nessa trama do Coisa Ruim, e a popularização
trouxe a banalização, sua companheira inseparável.
Basta um conhecido
receber um desses malditos textos musicados ou uma gracinha qualquer, e
você ter o infortúnio de fazer parte da lista de vítimas preferidas dele,
pronto: é mais uma bobagem para ler, no meio dos assuntos sérios. Como não
é fácil adivinhar o conteúdo do arquivo recebido sem abri-lo, você fica
tamborilando na mesa enquanto aguarda aqueles bites inúteis se
materializarem na tela.
E a publicidade que chega em massa com
promessas incríveis, como as de aumentar o tamanho de seu pênis, de
revitalizá-lo com medicamentos e aparelhos e de fazer da sua a mais feliz
das mulheres.
A face mais cruel dessa praga escravocrata, entretanto,
vem à tona quando alguém exclama com ar de contrariedade:
- Você não
recebeu o meu e-mail?
Ao ouvir essa pergunta sou invadido pelas culpas
somadas de todos os judeus que passaram pelo mundo, dos cristãos diante de
Jesus crucificado e de todas as mulheres que tiveram filhos.
Meu Deus,
como pude deixar de ver o tal e-mail? Devo ser vagabundo, irresponsável e
incapaz de acompanhar a velocidade dos dias modernos. Se meu pai voltasse
à vida, morreria de vergonha.
No início, até que os atrasos para
esvaziar minha caixa de entrada eram razoáveis: um assunto menos
importante, uma resposta que podia esperar ou um recado que ficava dois ou
três dias sem ser lido; nada que tomasse muito tempo para colocar em
ordem.
Com o passar dos anos, no entanto, os tentáculos desse polvo
eletrônico me enlaçaram até a asfixia. Minha caixa de entrada virou
calamidade pública.
Na semana passada, trabalhei até tarde todos os
dias. Chegar em casa às dez da noite, tomar banho, jantar e ir para o
computador. Não é tarefa alvissareira para quem acorda às 6h.
Apesar de
haver respondido algumas mensagens durante os dias da semana, domingo
havia 128 à espreita para me enlouquecer. Respondi quase 40 e deixei as
demais para os dias seguintes.
Não é fácil abrir o computador no meio
da correria diária, mas imbuído dos melhores princípios cristãos fiz o que
pude: consegui me livrar de 20 ou 30 por dia.
Adiantou? É como navegar
contra a maré em canoa furada: no fim de semana seguinte havia 132.
Por
isso, quero pedir desculpas a meus credores; procurei ser bom filho, bom
pai, bom marido e cidadão cumpridor dos deveres, mas, antes de perder a
razão, decidi comunicar-lhes que meu e-mail entrou em concordata por tempo
indeterminado.
Ele poderá argumentar que sou mal-agradecido, que sem
ele não teria conseguido escrever livros nem fazer metade do que fiz.
Estou de acordo, mas prefiro passar por ingrato e até por mau-caráter do
que acabar no hospício.
Além do mais, quem ele pensa que é? Meu patrão?
Acha que passei a vida estudando para acabar escravo?
Lamento o
inconveniente, mas não estou em condições psicológicas de prever a duração
da atual concordata. A julgar pelo estado de espírito em que me encontro,
não descarto a possibilidade de que no final dela venha a ser decretada a
falência do ...
kkkkkkkkk, bem, aí está formatado, musicado e enviado, rs
rs
Beijinhos,
Helena